Pedido de tombamento abre nova disputa sobre hidrovia que pode ampliar escoamento de cargas do Tocantins

Pedido de tombamento abre nova disputa sobre hidrovia que pode ampliar escoamento de cargas do Tocantins

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A retirada de um paredão de rochas que há anos trava a expansão da navegação pelo rio Tocantins ganhou um novo obstáculo. Pescadores e comunidades tradicionais do Pará recorreram ao Iphan para tentar transformar o Pedral do Lourenço em patrimônio protegido, numa iniciativa que pode interferir no projeto de abertura de um canal de 35 quilômetros para a passagem de grandes embarcações.

A movimentação interessa diretamente ao Tocantins. A retirada das rochas é uma das etapas consideradas estratégicas para ampliar a Hidrovia Tocantins-Araguaia e criar uma nova rota para transportar grãos, minérios e outras cargas pelo Arco Norte até o porto de Vila do Conde, em Barcarena (PA).

O pedido de tombamento está em análise inicial no Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. Isso significa que o Pedral ainda não foi tombado e a solicitação, por si só, não paralisa as intervenções autorizadas. No procedimento federal, a proteção provisória ocorre em uma etapa posterior, depois da instrução técnica e da expedição de uma notificação de tombamento pelo Iphan.

Canal depende da retirada de rochas

Localizado no Pará, o Pedral forma um trecho rochoso do rio Tocantins que dificulta a circulação de embarcações maiores, sobretudo quando o nível da água diminui.

O projeto federal prevê retirar as formações em um trecho de aproximadamente 35 quilômetros, criando condições para um canal de navegação com cerca de 100 metros de largura. As intervenções envolvem o uso de explosivos e estão previstas para começar em 2027.

O Ibama concedeu em maio de 2025 a licença de instalação para essa etapa. Além do derrocamento, o projeto da hidrovia contempla 177 quilômetros de dragagem, intervenção que ainda depende de licenciamento.

Para o Tocantins, a expectativa em torno da hidrovia está principalmente no agronegócio. Com o trecho navegável ampliado, a produção estadual e de outras áreas do Matopiba ganharia mais uma alternativa logística para chegar aos portos do Norte. O benefício econômico efetivo, porém, dependerá da conclusão das obras e das condições futuras de operação da rota.

Comunidades querem proteger área de pesca

Do outro lado da disputa estão moradores que vivem às margens do rio e dependem diretamente dele.

A Associação da Comunidade Ribeirinha Extrativista da Vila Tauiry (Acrevita) apresentou ao Iphan o pedido para reconhecer o Pedral por seus valores histórico, arqueológico, paisagístico e etnográfico. Cerca de 130 famílias vivem na comunidade de Santa Terezinha do Tauiry, em Itupiranga, e a pesca artesanal é uma das principais atividades locais.

As comunidades argumentam que as formações rochosas funcionam como abrigo e área de reprodução de peixes e sustentam formas tradicionais de pesca desenvolvidas ao longo de gerações. Pesquisadores também apontam a existência de vestígios relacionados a antigas ocupações humanas na região.

Em agosto, moradores chegaram a promover um “tombamento popular” do Pedral. O ato não tem o mesmo efeito jurídico de um tombamento realizado pelo Iphan, mas foi usado pelas comunidades para reforçar a reivindicação de proteção oficial da área.

Disputa pela obra já chegou à Justiça

O pedido ao Iphan é mais um capítulo de uma discussão que já passou pelos tribunais.

O Ministério Público Federal moveu ação contra o derrocamento alegando impactos sobre comunidades tradicionais e questionando a forma como elas foram consideradas durante o processo. Em dezembro de 2025, porém, a Justiça Federal no Pará autorizou a continuidade do projeto e manteve válida a licença concedida pelo Ibama, ao mesmo tempo em que reconheceu a necessidade de medidas de compensação aos ribeirinhos atingidos.

O Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit), responsável pelo empreendimento, afirma que o projeto busca aumentar a segurança e a navegabilidade do rio. O órgão continua realizando estudos para a intervenção e informou à Folha de S.Paulo que acompanhará eventual processo formal de tombamento conduzido pelo Iphan.

Enquanto o pedido é analisado, a disputa coloca frente a frente dois interesses: a abertura de uma rota logística considerada estratégica para o transporte de cargas pelo rio Tocantins e a reivindicação das comunidades pela preservação do Pedral e de áreas utilizadas para pesca e reprodução de espécies.

Redação Elo Norte
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